Fundir para crescer: o que a maior fusão do varejo pet ensina sobre estratégia empresarial?

Diego Velázquez
Por Diego Velázquez 6 Min de leitura
Hugo Galvão de França Filho

Hugo Galvão de França Filho, empresário e especialista em marketplaces e crescimento de vendas online, comenta que poucas movimentações recentes do varejo brasileiro tiveram tanto impacto simbólico quanto a fusão entre duas das maiores redes do mercado pet nacional, concluída no início de 2026 após meses de análise por parte do órgão regulador de concorrência do país. Mais do que uma simples soma de lojas e faturamento, essa operação funciona como um estudo de caso valioso sobre como grandes empresas pensam estratégia de crescimento em um setor que, apesar de bilionário, ainda é surpreendentemente fragmentado.

É possível analisar esse tipo de movimentação não pelo tamanho do negócio em si, mas pela lógica estratégica que existe por trás dele. Para ele, entender por que duas grandes companhias decidem se unir, mesmo diante de escrutínio regulatório e de reação de concorrentes, revela lições aplicáveis a negócios de qualquer porte que estejam pensando em crescimento de longo prazo.

Por que unir forças em um mercado que já cresce sozinho

À primeira vista, pode parecer contraditório que duas empresas líderes decidam se fundir justamente em um setor que já vinha registrando crescimento consistente por conta própria. Mas é exatamente aí que está o primeiro ensinamento estratégico dessa operação: crescimento de mercado e ganho de eficiência são coisas diferentes, e nem sempre uma resolve o problema da outra.

Segundo Hugo Galvão, a combinação entre as duas redes teve como principal motivação a busca por sinergias operacionais, estimadas em centenas de milhões de reais ao longo de cinco anos, por meio da unificação de sistemas, fornecedores e processos logísticos. Ele destaca que esse tipo de ganho, difícil de alcançar organicamente, costuma ser um dos principais motores por trás de fusões em setores de margem apertada, já que reduzir custo estrutural pode ter impacto financeiro tão relevante quanto conquistar novos clientes.

Escala não é sinônimo de domínio de mercado

Um dado que chama atenção nessa operação é o fato de que, mesmo após a fusão, a companhia combinada segue controlando uma fatia relativamente pequena do mercado pet nacional, próxima de um décimo do faturamento total do setor. Isso acontece porque pequenos e médios negócios ainda respondem por quase metade de todo o faturamento do mercado pet brasileiro, uma característica bem diferente da observada em países com varejo mais consolidado.

Para Hugo Galvão de França Filho, esse dado carrega um ensinamento estratégico importante para empresários de qualquer tamanho: escala não elimina automaticamente a concorrência, especialmente em mercados culturalmente fragmentados como o brasileiro. Ele reforça que negócios menores não deveriam interpretar movimentos de consolidação como uma ameaça existencial, mas sim como um sinal de que ainda existe espaço real de crescimento para quem souber se diferenciar por proximidade, atendimento e relacionamento com o consumidor local.

O verdadeiro desafio começa depois do anúncio!

Um erro comum ao analisar fusões é acreditar que o trabalho estratégico termina na assinatura do contrato. Na prática, a fase mais delicada começa depois, quando é preciso unificar culturas organizacionais distintas, integrar sistemas de tecnologia diferentes e alinhar equipes que, até pouco tempo antes, competiam diretamente entre si no mesmo mercado.

Hugo Galvão observa que esse período de integração costuma ser onde boa parte das fusões perde valor, já que sinergias projetadas no papel nem sempre se concretizam na velocidade esperada. Segundo ele, empresas que conduzem esse processo com transparência interna e comunicação clara sobre prazos e expectativas conseguem preservar melhor o valor estratégico original da operação, enquanto aquelas que subestimam a complexidade da integração acabam vendo parte do ganho projetado se dissolver ao longo do caminho.

Consolidação e fragmentação podem conviver

O caso reforça algo que Hugo Galvão de França Filho costuma repetir sobre gestão empresarial: mercados podem crescer de forma consolidada e fragmentada ao mesmo tempo, dependendo da categoria analisada. Enquanto grandes players disputam escala e eficiência operacional, uma base extensa de pequenos negócios regionais continua atendendo o consumidor com proximidade e agilidade que estruturas maiores nem sempre conseguem replicar em cada bairro ou cidade do país.

A Enjoy Pets, atuante no mercado pet, acompanha esse tipo de movimentação estratégica como referência para entender os diferentes caminhos possíveis de crescimento dentro do setor. Para Hugo Galvão, a lição mais valiosa dessa fusão não está no tamanho do negócio resultante, mas na confirmação de que estratégia bem executada, seja por consolidação, seja por especialização regional, continua sendo o fator que realmente separa empresas que crescem de forma sustentável daquelas que apenas ganham escala sem gerar valor real no processo.

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