Apartamentos de dois quartos dominam mercado imobiliário e representam 65% das vendas

Erik Nordalen
Por Erik Nordalen 10 Min de leitura

Unidades de dois dormitórios concentram quase dois terços das vendas de imóveis novos e revelam mudança importante na preferência dos compradores brasileiros.

Os apartamentos e demais imóveis residenciais com dois dormitórios se consolidaram como o principal produto do mercado imobiliário brasileiro em 2026. Dados dos Indicadores Imobiliários Nacionais, divulgados pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), mostram que 65,2% das unidades residenciais novas comercializadas no segundo trimestre tinham dois quartos. Na prática, aproximadamente dois em cada três imóveis vendidos entre abril e junho pertenciam a essa configuração, deixando opções maiores com uma participação significativamente menor no mercado.

O resultado aparece em um período no qual o setor continua movimentado apesar dos juros elevados. Foram vendidos 113.676 imóveis residenciais novos durante o segundo trimestre, crescimento de 5,3% na comparação com o mesmo período de 2025. No primeiro semestre inteiro, as vendas chegaram a 226.536 unidades, alta de 5,4%. Para quem pretende comprar, vender ou investir em imóveis, a concentração em dois dormitórios gera uma pergunta importante: por que esse tipo de imóvel se tornou tão dominante e o que isso revela sobre preços, famílias e procura por moradia no Brasil?

Por que os imóveis de dois quartos concentram 65% das vendas?

Os dados da CBIC mostram uma diferença expressiva entre as configurações disponíveis no mercado. Imóveis de dois dormitórios representaram 65,2% das unidades comercializadas no segundo trimestre, enquanto aqueles com apenas um quarto ficaram com 23,1%. Os imóveis de três dormitórios responderam por aproximadamente 10% das vendas, e as unidades maiores, com quatro dormitórios, representaram somente 1,8%. O levantamento integra os Indicadores Imobiliários Nacionais da CBIC, realizados com a Brain Inteligência Estratégica e informações coletadas em mais de 200 cidades brasileiras. CBIC — Indicadores do mercado imobiliário

A predominância dos dois quartos está relacionada à capacidade dessa configuração de atender diferentes perfis de moradores. Um mesmo imóvel pode servir a um casal que deseja um cômodo adicional para escritório, famílias com um ou dois filhos, pessoas que trabalham remotamente ou compradores que procuram espaço maior sem assumir o custo normalmente associado a unidades de três ou quatro dormitórios. Essa flexibilidade amplia o número de potenciais interessados e ajuda a tornar o imóvel de dois quartos uma alternativa intermediária entre apartamentos compactos e unidades familiares maiores.

O preço também é um componente importante nessa escolha. Imóveis maiores geralmente exigem não apenas um investimento inicial superior, mas podem trazer despesas maiores com condomínio, IPTU, manutenção e mobiliário. Em um cenário no qual o financiamento imobiliário permanece sensível às taxas de juros, reduzir o valor financiado pode representar uma diferença significativa no tamanho das prestações e no custo total pago durante o contrato. Por esse motivo, famílias que inicialmente poderiam desejar três dormitórios podem optar por dois quartos para manter o financiamento dentro de um orçamento considerado sustentável.

A transformação do uso da residência depois da expansão do trabalho híbrido também aumentou a versatilidade desse formato. Para uma pessoa que mora sozinha ou um casal sem filhos, por exemplo, o segundo dormitório pode funcionar como escritório, quarto de hóspedes ou espaço multifuncional. Isso permite que o comprador tenha alguma flexibilidade sem necessariamente precisar adquirir uma unidade muito maior, característica especialmente relevante em cidades onde terrenos e imóveis bem localizados têm preços elevados.

Minha Casa, Minha Vida ajuda a explicar preferência por dois dormitórios

Outro elemento importante para compreender os números é a expansão do Minha Casa, Minha Vida (MCMV). O programa habitacional respondeu por 58% dos lançamentos residenciais brasileiros no segundo trimestre de 2026, maior participação registrada desde o início da série histórica da CBIC, em 2019. Foram 62.129 unidades enquadradas no programa lançadas entre abril e junho, diante de 45.032 unidades pertencentes aos demais segmentos do mercado. CBIC — participação recorde do Minha Casa, Minha Vida

Nas vendas, a participação do programa também foi expressiva. Das 113.676 unidades residenciais novas comercializadas no período, 58.392 pertenciam ao Minha Casa, Minha Vida, equivalentes a pouco mais da metade do total. Na comparação com o primeiro trimestre, as vendas vinculadas ao programa cresceram 5%. O avanço significa que empreendimentos destinados às famílias atendidas pelas regras habitacionais federais passaram a exercer influência ainda maior sobre o perfil geral dos imóveis comercializados no país.

Essa expansão ajuda a entender a força das unidades de dois dormitórios, configuração comum em projetos residenciais direcionados ao mercado de entrada. Para construtoras, equilibrar área construída, preço final e capacidade de financiamento do consumidor é essencial para tornar um empreendimento comercialmente viável. Dois quartos oferecem uma solução capaz de atender famílias sem elevar tanto a metragem e o custo final quanto ocorreria em projetos predominantemente compostos por unidades maiores.

O fenômeno é particularmente relevante no Sudeste. Segundo os indicadores da CBIC, 66% dos lançamentos residenciais realizados na região no segundo trimestre estavam enquadrados no Minha Casa, Minha Vida. Como São Paulo integra o maior mercado imobiliário regional do país, o avanço de projetos populares e intermediários pode influenciar desde grandes regiões metropolitanas até cidades menores, principalmente aquelas que recebem novos empreendimentos residenciais associados à expansão urbana e à busca por imóveis mais acessíveis.

O que essa preferência significa para compradores, investidores e imobiliárias?

Para quem pretende comprar um imóvel, a concentração das vendas em unidades de dois dormitórios pode representar tanto vantagem quanto necessidade de atenção. Uma oferta maior desse tipo de produto tende a ampliar as possibilidades de comparação entre empreendimentos, bairros, preços e condições de pagamento. Por outro lado, o comprador não deve escolher um imóvel apenas porque determinada configuração está em alta: tamanho da família, perspectiva de permanência no imóvel, localização, despesas mensais e capacidade financeira precisam fazer parte da decisão.

Para investidores, o dado de 65,2% também funciona como um indicador de liquidez potencial, mas não como garantia de rentabilidade. Um apartamento de dois quartos pode alcançar um público maior na venda ou locação justamente pela flexibilidade de utilização, porém fatores locais continuam sendo decisivos. Proximidade de transporte público, comércio, escolas, hospitais, áreas empresariais e serviços pode ter influência tão grande quanto o número de dormitórios na procura por uma propriedade.

Imobiliárias e incorporadoras também podem usar esses indicadores para entender melhor a transformação do público comprador. O mercado terminou o segundo trimestre com 355.290 imóveis residenciais novos disponíveis para venda, quantidade 2,1% inferior à registrada ao final dos três primeiros meses do ano, embora ainda 8,2% maior na comparação anual. Ao mesmo tempo, as vendas continuaram crescendo, mostrando que existe demanda mesmo em um ambiente financeiro desafiador. CBIC — vendas, lançamentos e oferta residencial

Essa combinação também reforça a importância de analisar cada mercado regional separadamente. O fato de imóveis de dois quartos liderarem as vendas nacionais não significa que tenham exatamente o mesmo desempenho em todos os bairros e municípios. Cidades universitárias, por exemplo, podem apresentar demanda elevada por unidades compactas, enquanto regiões residenciais voltadas a famílias podem favorecer apartamentos maiores. Por isso, dados nacionais servem como referência, mas precisam ser combinados com preços, estoque e procura existentes em cada região.

A liderança dos imóveis de dois dormitórios revela como o mercado imobiliário está se adaptando à combinação entre orçamento familiar, custo do financiamento e necessidade de espaço. Com 65,2% das vendas do segundo trimestre concentradas nessa configuração, o segmento se distancia significativamente dos imóveis de um, três ou quatro quartos e se estabelece como o principal formato residencial comercializado atualmente.

Para quem está pesquisando um imóvel em 2026, entretanto, popularidade não deve ser o único critério. Comparar preço por metro quadrado, localização, condomínio, entrada, juros do financiamento e possibilidade de valorização continua sendo essencial antes da compra. O crescimento do Minha Casa, Minha Vida e a preferência pelos dois dormitórios mostram para onde boa parte da oferta está caminhando, mas a melhor escolha continuará dependendo das necessidades e da capacidade financeira de cada comprador.

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