Antes do lançamento: como o valor deum empreendimento imobiliário éconstruído

Fábio Baietti
Por Fábio Baietti 8 Min de leitura

Quando comecei a atuar diretamente no desenvolvimento de loteamentos, uma das diferenças que mais me chamou a atenção foi esta: comprar um imóvel e investir na formação de um empreendimento são decisões muito diferentes. As duas podem fazer sentido, mas acontecem em momentos distintos da criação de valor.

Na compra de um lote já lançado, boa parte do caminho foi percorrida. O produto foi definido, os principais estudos foram realizados e o mercado já consegue enxergar o que será entregue. Na incorporação, o investidor entra antes, quando ainda existe trabalho para transformar uma área em um produto imobiliário.

O terreno, sozinho, não é o negócio. É preciso compreender sua vocação, estudar restrições, definir o produto, desenvolver projetos, obter aprovações, planejar a infraestrutura e preparar o lançamento. Quem participa desse ciclo não está apenas tentando entrar por um preço menor. Está assumindo parte do trabalho e dos riscos envolvidos na construção daquele valor.

O valor não aparece de uma vez

Quem olha apenas para o preço do terreno deixa de enxergar onde boa parte do trabalho acontece. Uma área bem localizada pode perder viabilidade por restrições ambientais, custo de infraestrutura, dificuldade de acesso ou um produto mal dimensionado. O contrário também acontece: uma área ainda pouco compreendida pode ganhar valor quando os estudos revelam uma solução urbanística adequada e uma demanda real.

No dia a dia de uma loteadora, grande parte do valor é construída antes de qualquer obra visível. Topografia, meio ambiente, urbanismo, engenharia, jurídico, comercial e financeiro precisam trabalhar sobre as mesmas premissas. Uma decisão isolada pode comprometer a viabilidade inteira. Quando essas frentes avançam de forma coordenada, o projeto deixa de ser uma intenção e passa a ter prazo, custo e produto mais claros.

É por isso que uma entrada anterior pode ter um potencial de valorização diferente da compra de um produto já lançado. O investidor se posiciona antes de parte relevante do valor estar materializada. Em contrapartida, fica exposto às incertezas que ainda precisam ser resolvidas.

Um exemplo simples para visualizar as duas entradas

Para deixar essa diferença mais clara, imagine um exemplo hipotético. Em determinado loteamento, o valor de mercado aumenta 20% entre o lançamento e a conclusão da infraestrutura. Uma pessoa que invista R$ 100 mil no lançamento chegaria ao final desse período com um ativo avaliado em R$ 120 mil. Ela participou da valorização ocorrida depois que o produto já estava definido e apresentado ao mercado.

Agora considere outra pessoa que destine os mesmos R$ 100 mil à fase de desenvolvimento, antes do lançamento. Se os estudos, o projeto, as aprovações e a estruturação comercial acrescentarem 30% ao valor dessa participação, os R$ 100 mil passariam a representar R$ 130 mil no lançamento.

Se, a partir daí, ocorrer a mesma valorização de 20% até a entrega da infraestrutura, o valor final seria de R$ 156 mil. O primeiro investidor participou da valorização entre lançamento e entrega. O segundo também ficou exposto à fase anterior e capturou as duas etapas. O resultado não é uma soma simples de 30% com 20%, porque a segunda valorização incide sobre R$ 130 mil.

É um exemplo hipotético, usado apenas para mostrar como os dois momentos de entrada podem produzir resultados diferentes.

Entrar antes não significa investir sem critério

Na prática, aprendi a desconfiar de viabilidades que apresentam apenas o número final. VGV, margem estimada e prazo de retorno são importantes, mas dependem de premissas. É preciso separar o que já foi confirmado do que ainda é hipótese e entender o que pode mudar o cenário apresentado.

Também não basta avaliar o empreendimento sem avaliar quem irá desenvolvê-lo. A experiência do incorporador, a capacidade técnica da equipe, o histórico dos parceiros e a forma como a empresa presta contas pesam diretamente na operação. Projetos imobiliários atravessam anos e enfrentam decisões que nem sempre estavam previstas no início. O investidor precisa saber quem decidirá e como será informado.

A estrutura jurídica merece a mesma atenção. Dependendo do projeto, podem existir sociedades de propósito específico (SPE), sociedades em conta de participação (SCP) ou outros instrumentos. A sigla, sozinha, não protege ninguém. Direitos, responsabilidades, regras de saída, prestação de contas e tratamento de situações adversas precisam estar claros e ser analisados por profissionais habilitados.

Governança é parte do investimento

Em uma operação bem estruturada, governança não é um relatório produzido depois que o problema aparece. Ela começa na definição das responsabilidades, nos critérios de aprovação e na forma como o orçamento será acompanhado. O investidor não precisa executar a rotina do empreendimento, mas precisa ter acesso às informações necessárias para entender o uso do capital e a evolução dos riscos.

Isso envolve um cronograma realista, estudos atualizados, controle das alterações de projeto, acompanhamento financeiro e comunicação periódica. Quando uma premissa muda, seu impacto precisa aparecer. Quando uma etapa atrasa, é preciso explicar a causa e o que será feito. Transparência não é ausência de problemas. É não escondê-los até que se tornem maiores.

Venho da gestão da qualidade, e isso influencia muito a forma como analiso um empreendimento. Processo, para mim, só faz sentido quando melhora a decisão. Um documento organizado, uma análise crítica no momento certo ou uma responsabilidade bem definida podem evitar que uma pequena pendência se transforme em meses de atraso e perda de margem.

Antes de investir, é preciso compreender a operação

Eu não vejo a incorporação como um atalho para rentabilidade. Vejo como a participação em um processo de criação de valor. É uma decisão diferente de comprar uma unidade para uso, renda ou valorização patrimonial e, por isso, exige uma análise diferente.

A pergunta não deve ser apenas quanto o projeto poderá render. É necessário entender como a área foi escolhida, qual demanda sustenta o produto, quais aprovações ainda serão necessárias, quem responde pela execução, como os recursos serão controlados e quais riscos podem alterar o resultado. Quanto mais cedo ocorre a entrada, mais claras essas respostas precisam ser.

A incorporação pode criar boas oportunidades porque transforma trabalho técnico e execução em valor. Mas a decisão de investir não deve nascer apenas da expectativa de valorização. Ela começa pela compreensão do projeto e pela confiança, sustentada por fatos, em quem será responsável por desenvolvê-lo.

Sobre o autor

Fábio Baietti é empreendedor do setor imobiliário e CEO da Vogar Empreendimentos São Paulo. Também é fundador da Baietti Consultoria, onde consolidou sua experiência em gestão da qualidade, processos e governança aplicada à construção civil. Atua na estruturação e no desenvolvimento de empreendimentos imobiliários.

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