Estudar agronomia em Viçosa: Rotina, trotes e renda extra

Erik Nordalen
Por Erik Nordalen 5 Min de leitura
Alfredo Moreira Filho

Alfredo Moreira Filho, especializado em gestão empresarial e formado em agronomia pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), relembra que o resultado do vestibular foi lido em voz alta na porta da instituição, por ordem de classificação. O nome dele apareceu em oitavo lugar. Para um jovem vindo do interior da Bahia, sem dinheiro para se manter, a aprovação era só o começo: faltava descobrir como viver quatro anos numa cidade universitária de Minas Gerais.

A UFV, criada como Escola Superior de Agricultura, tornou-se uma das referências do país em ciências agrárias, e Viçosa cresceu em torno dela. Estudar agronomia ali significava mergulhar numa rotina própria, com regras, tradições e desafios financeiros que pouca gente conhece de fora. Se você está prestes a entrar numa universidade longe de casa, vale conhecer como esse cotidiano funcionava.

Bolsa, bandejão e a reta da universidade

Para estudantes sem renda familiar, a permanência dependia de assistência estudantil. O ensino era público, mas moradia e alimentação eram concorridas e caras. Uma bolsa que cobrisse alojamento e refeições fazia a diferença entre cursar a faculdade e desistir no primeiro semestre, e por isso era disputada.

Com a aprovação, veio a bolsa completa que havia sido prometida como contrapartida do desafio do vestibular, como relata Alfredo Moreira. Antes disso, durante a preparação, ele subia três vezes por dia a longa reta que ligava o centro da cidade ao campus para fazer as refeições no restaurante universitário. Enfrentou manhãs e noites de inverno mineiro sem agasalho adequado, uma novidade para quem tinha crescido no clima quente da Bahia.

O trote e os apelidos que viram nome

Calouros de Viçosa passavam por um ritual de iniciação que durava cerca de quarenta dias. As regras não estavam escritas em lugar nenhum, mas todos conheciam: cabeça raspada sempre que o cabelo começasse a crescer, fim da fila no bandejão e obrigação de servir água aos veteranos, chamados de augustíssimos. Calouros que conseguiam um padrinho entre os veteranos respondiam apenas a ele.

O período terminava com uma marcha de integração, na qual cada calouro recebia oficialmente o apelido pelo qual passaria a ser chamado. Segundo a lembrança de Alfredo Moreira Filho, os apelidos substituíam os nomes de batismo de tal forma que, anos depois de formados, muitos agrônomos continuavam sem ser reconhecidos pelos colegas quando apresentados pelo nome oficial em ocasiões formais.

Alfredo Moreira Filho
Alfredo Moreira Filho

Datilografia como fonte de renda

Entre a maioria dos colegas, a mesada chegava todo mês pelo banco, enviada por pais agricultores. Quem não recebia mesada precisava encontrar outra forma de pagar uma cerveja ou um prato feito no centro da cidade. Habilidades adquiridas antes da faculdade, por mais simples que parecessem, podiam virar renda.

A dele era a datilografia, aprendida nos tempos de bancário em Salvador. Como secretário do centro acadêmico, com acesso às máquinas de escrever, passou a datilografar teses de mestrado e doutorado e apostilas de professores, cobrando por folha. Alfredo Moreira diz que chegava a 1.200 toques por minuto, velocidade que transformou uma tarefa burocrática num pequeno negócio dentro do campus.

Professor nas férias

Universidades também criam oportunidades fora do calendário letivo. Convênios com empresas públicas e privadas trazem cursos, treinamentos e demandas temporárias que podem ser aproveitados por estudantes com experiência prévia. Abrir mão das férias, nesses casos, pode significar o fôlego financeiro do semestre seguinte.

Quando a universidade firmou acordo para capacitar executivos da Companhia Brasileira de Armazenamento (Cibrazem), ele foi selecionado para dar aulas noturnas de reforço, graças à experiência como professor substituto no interior baiano. Na avaliação de Alfredo Moreira Filho, a maior satisfação veio no resultado: três dos cinco mais bem classificados no curso tinham frequentado suas aulas. Percorrido esse caminho, nota-se que estudar agronomia em Viçosa exigia, além de dedicação aos livros, criatividade para se manter até o diploma.

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