Startup de Jundiaí aposta em inteligência artificial para organizar leads, apoiar corretores e digitalizar processos de imobiliárias e construtoras.
Uma proptech do interior de São Paulo está mostrando como a inteligência artificial começa a ganhar espaço em uma das etapas mais importantes do mercado imobiliário: a venda de imóveis. A Roboticon, empresa de Jundiaí especializada em tecnologia para imobiliárias e construtoras, informou que mais de R$ 2,5 bilhões em Valor Geral de Vendas (VGV) já passaram pelas plataformas desenvolvidas pela companhia. A empresa também foi selecionada, pelo segundo ano consecutivo, entre as Top 1000 do Prêmio Sebrae Startups e participa do Startup Summit, realizado entre 26 e 28 de agosto em Florianópolis. (Economia SC)
O caso chama atenção porque ajuda a responder uma dúvida cada vez mais comum no setor: como a inteligência artificial pode mudar o trabalho das imobiliárias e dos corretores? Em vez de concentrar a tecnologia apenas na publicação de anúncios ou no primeiro atendimento ao interessado, a startup aposta em sistemas capazes de acompanhar oportunidades durante uma jornada de compra que pode durar semanas ou meses. A proposta é reduzir contatos esquecidos, organizar tarefas comerciais e utilizar dados para indicar quais potenciais compradores merecem atenção em determinado momento. (Economia SC)
Como a inteligência artificial está sendo usada para vender imóveis
Um dos principais produtos desenvolvidos pela Roboticon é o Botleads, plataforma voltada ao acompanhamento de contatos comerciais. O sistema pode ser integrado aos CRMs utilizados pelas empresas e atua principalmente depois que um potencial comprador é encaminhado para um vendedor. Essa etapa é importante porque a aquisição de um imóvel normalmente exige pesquisa, comparação de preços, avaliação de financiamento, visitas e negociação, fazendo com que o relacionamento entre consumidor e corretor possa se prolongar. Quando um profissional precisa administrar muitos contatos simultaneamente, algumas oportunidades podem deixar de receber acompanhamento adequado. (Economia SC)
Para tentar solucionar esse problema, a empresa desenvolveu uma inteligência artificial chamada Sara, apresentada como uma espécie de copiloto para o profissional imobiliário. A ferramenta organiza prioridades, acompanha follow-ups, auxilia na retomada de contatos antigos e analisa continuamente a carteira comercial em busca de oportunidades que possam ser recuperadas. A lógica não é simplesmente responder automaticamente ao cliente, mas utilizar a capacidade da IA de processar grandes quantidades de informações para ajudar o profissional a decidir onde concentrar seus esforços. Segundo a empresa, isso permite administrar uma carteira maior sem eliminar o relacionamento humano, considerado especialmente importante em negociações de alto valor como a compra de uma casa ou apartamento. (Economia SC)
Outro ponto importante está no aproveitamento dos investimentos realizados pelas imobiliárias para conquistar clientes. Empresas do setor gastam recursos com portais imobiliários, anúncios em mecanismos de busca, redes sociais, sites próprios e campanhas digitais para gerar leads, mas o contato inicial não significa necessariamente uma venda imediata. A Roboticon aposta justamente na utilização de inteligência artificial para manter essas oportunidades organizadas durante períodos maiores e identificar potenciais compradores que poderiam ser esquecidos. Dessa maneira, a tecnologia pode contribuir não apenas para buscar novos clientes, mas também para tentar melhorar a conversão dos contatos pelos quais a empresa já pagou para adquirir. (Economia SC)
Tecnologia também começa a transformar os lançamentos imobiliários
A inteligência artificial é apenas uma parte do processo de digitalização apresentado pela empresa. Outra plataforma, chamada Botvendas, foi desenvolvida para digitalizar etapas operacionais relacionadas aos lançamentos imobiliários. Informações sobre disponibilidade de unidades, tabelas de vendas, análise de crédito, elaboração de propostas, processos comerciais e formação de contratos podem ser administradas digitalmente. Em grandes empreendimentos, nos quais centenas de profissionais podem comercializar unidades simultaneamente, manter todos os corretores atualizados sobre preços e disponibilidade é um desafio operacional relevante. (Economia SC)
A digitalização também permite que profissionais consultem informações de um empreendimento mesmo quando estão em outras cidades. Isso pode ampliar o alcance comercial de lançamentos e reduzir a dependência de documentos, planilhas ou informações distribuídas manualmente. Para imobiliárias e construtoras, sistemas integrados podem ainda criar bases de dados mais completas sobre o comportamento dos clientes, o andamento das negociações e os resultados das campanhas de marketing. Quanto mais informações são registradas ao longo da jornada de venda, maior tende a ser a capacidade de identificar padrões e aperfeiçoar estratégias comerciais. (Economia SC)
A Roboticon prepara ainda uma integração entre o Botleads e o Construtor de Vendas, plataforma utilizada na gestão comercial de incorporadoras e construtoras. A ideia é fazer com que as atividades executadas pelos corretores sejam incorporadas ao sistema central das empresas, enquanto a inteligência artificial atua como uma camada adicional de organização e análise. Na prática, a estratégia evita exigir que uma construtora substitua toda a infraestrutura tecnológica que já utiliza para começar a incorporar recursos de IA. A integração de diferentes plataformas deve ser uma das frentes de expansão da proptech em sua tentativa de ganhar escala nacional. (Economia SC)
IA vai substituir o corretor de imóveis?
Apesar do avanço da automação, a estratégia apresentada pela Roboticon não parte da ideia de eliminar o profissional responsável pela venda. Denis Bistaffa, CEO e fundador da startup, afirma que a empresa enxerga a inteligência artificial como uma ferramenta para ampliar a capacidade humana. Atividades como organizar grandes quantidades de informações, encontrar padrões, acompanhar processos e lembrar tarefas podem ser realizadas com apoio tecnológico, enquanto relacionamento, confiança e negociação continuam dependendo fortemente das pessoas. A combinação dessas duas funções mostra uma possível direção para a transformação tecnológica do setor imobiliário nos próximos anos. (Economia SC)
Essa diferença é especialmente relevante porque imóveis não são produtos de compra recorrente ou de baixo valor. Uma família pode passar meses pesquisando antes de decidir onde investir uma parcela significativa de sua renda e, em muitos casos, assumir um financiamento de longo prazo. Dúvidas sobre localização, documentação, condições do empreendimento, crédito e negociação exigem acompanhamento individualizado. Nesse cenário, a IA pode assumir tarefas repetitivas e organizar dados enquanto o corretor dedica mais tempo às etapas em que conhecimento do mercado e relacionamento com o comprador fazem diferença. A tecnologia, portanto, tende a alterar a rotina profissional antes de simplesmente eliminar a função.
Os números divulgados pela Roboticon ajudam a dimensionar o alcance que essas ferramentas já estão conquistando. Mais de R$ 2,5 bilhões em VGV passaram por suas plataformas, e a empresa afirma ter validado as soluções em operações reais de imobiliárias e construtoras antes de entrar na atual etapa de expansão e integração tecnológica. A seleção para o Prêmio Sebrae Startups e a presença no Startup Summit também colocam a empresa em contato com investidores, empreendedores e outras companhias de tecnologia, em um momento no qual diferentes setores procuram transformar aplicações experimentais de IA em ferramentas efetivamente incorporadas às operações comerciais. (Economia SC)
Para quem pretende comprar ou vender um imóvel, a transformação pode aparecer de maneira menos visível do que outras aplicações populares da inteligência artificial. O consumidor talvez continue conversando diretamente com um corretor, mas esse profissional poderá utilizar sistemas capazes de lembrar automaticamente um atendimento, identificar imóveis compatíveis com determinados interesses e organizar informações acumuladas durante meses de negociação. Para imobiliárias e construtoras, o benefício buscado está principalmente no aumento da produtividade e no melhor aproveitamento dos contatos já conquistados.
O avanço da Roboticon mostra que a aplicação da IA no mercado imobiliário brasileiro está indo além dos chatbots de atendimento. A tecnologia começa a entrar na gestão comercial, na recuperação de oportunidades, na organização dos lançamentos e na integração de dados entre diferentes sistemas. O desafio agora será demonstrar, em maior escala, quanto essa automação consegue elevar as vendas e reduzir custos sem prejudicar um elemento que continua central na compra de imóveis: a confiança entre consumidor e profissional.

