Vendas de imóveis crescem 5,3% no segundo trimestre mesmo com juros elevados

Erik Nordalen
Por Erik Nordalen 10 Min de leitura

Mercado residencial vendeu 113,7 mil unidades entre abril e junho; Minha Casa, Minha Vida ajuda a sustentar demanda apesar do crédito mais caro.

O mercado imobiliário brasileiro conseguiu manter as vendas em crescimento mesmo diante de um cenário de juros elevados e financiamento mais caro para parte das famílias. Dados divulgados nesta segunda-feira (24) pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) mostram que 113.676 imóveis residenciais novos foram vendidos no segundo trimestre de 2026, resultado 5,3% superior ao registrado entre abril e junho de 2025. No acumulado dos seis primeiros meses do ano, foram comercializadas 226.536 unidades, avanço de 5,4% na comparação anual. (CBIC)

Os números levantam uma questão importante para quem pensa em comprar imóvel: como as vendas continuam crescendo mesmo quando os juros tornam o financiamento mais pesado? Parte da resposta está no fortalecimento do Minha Casa, Minha Vida, que atingiu participação recorde nos lançamentos, além da manutenção da demanda por moradia. Ao mesmo tempo, o desempenho não significa que o crédito deixou de ser um problema, especialmente para compradores de imóveis de médio e alto padrão. (CBIC)

Por que as vendas de imóveis continuam crescendo mesmo com juros altos?

O crescimento de 5,3% no segundo trimestre ocorreu sobre uma base já relevante: no mesmo período de 2025 haviam sido comercializadas 107.924 unidades. Na comparação com os três primeiros meses de 2026, as vendas também avançaram, embora de forma mais moderada, com alta de 0,7%. Os dados fazem parte dos Indicadores Imobiliários Nacionais da CBIC, elaborados pela Brain Inteligência Estratégica, e abrangem 221 cidades, incluindo capitais, regiões metropolitanas e outros mercados importantes. (CBIC)

O resultado mostra que juros elevados não necessariamente paralisam o mercado imobiliário, mas mudam sua composição. Segundo a CBIC, o custo do crédito continua limitando a capacidade de compra das famílias e encarecendo os financiamentos, enquanto segmentos apoiados por políticas habitacionais conseguem apresentar maior resistência. Para o consumidor, isso significa que a análise de uma compra não deve considerar somente o preço anunciado do imóvel, mas também entrada disponível, prazo, sistema de amortização e custo total do financiamento. (CBIC)

Outro indicador importante está nos lançamentos. Entre abril e junho foram colocadas no mercado 107.161 novas unidades, crescimento de 2,6% diante do primeiro trimestre, mas redução de 1,3% na comparação com o segundo trimestre de 2025. No primeiro semestre, os lançamentos chegaram a 211.651 unidades, praticamente estáveis diante das 212.338 unidades registradas no mesmo período do ano passado. Assim, enquanto as vendas continuam avançando, as incorporadoras demonstram maior cautela na colocação de novos projetos no mercado. (CBIC)

Essa combinação ajuda a explicar por que o setor fala em resiliência, e não necessariamente em uma expansão uniforme. As condições financeiras continuam pressionando determinados compradores, sobretudo aqueles que dependem de linhas tradicionais de crédito para adquirir imóveis fora das faixas subsidiadas. Ao mesmo tempo, a necessidade de moradia, programas habitacionais e diferentes formas de financiamento mantêm negócios acontecendo. Para imobiliárias e construtoras, o cenário exige atenção maior ao perfil de renda do consumidor e às condições oferecidas para transformar interesse em compra efetiva.

Minha Casa, Minha Vida ganha espaço e sustenta parte importante das vendas

O principal destaque dos números divulgados pela CBIC é o avanço do Minha Casa, Minha Vida (MCMV). O programa respondeu por 58% de todos os imóveis residenciais lançados no Brasil durante o segundo trimestre, maior participação registrada desde o início da série histórica, em 2019. Foram 62.129 unidades enquadradas no programa lançadas entre abril e junho, enquanto os demais padrões somaram 45.032 unidades. No primeiro trimestre, a participação do MCMV nos lançamentos havia sido de 50%. (CBIC)

A presença também é expressiva nas vendas. Das 113.676 unidades comercializadas no segundo trimestre, 58.392 pertenciam ao Minha Casa, Minha Vida, equivalentes a aproximadamente 51% do mercado pesquisado. Em relação aos primeiros três meses do ano, quando haviam sido comercializadas 55.596 unidades do programa, houve crescimento de 5%. O resultado ajuda a explicar por que o mercado residencial continua registrando números positivos mesmo diante das dificuldades provocadas pelo custo do crédito. (CBIC)

As diferenças regionais também são significativas. No Sudeste, região que concentra São Paulo e grande parte do mercado imobiliário nacional, o Minha Casa, Minha Vida respondeu por 66% dos lançamentos no segundo trimestre. No Norte, a participação chegou a 68%, enquanto Nordeste e Centro-Oeste registraram 60% e 52%, respectivamente. O Sul apresentou participação menor, de 29%, mostrando que a importância do programa varia de acordo com características econômicas, disponibilidade de terrenos e estrutura de cada mercado regional. (CBIC)

Para quem pretende comprar um imóvel, o avanço do programa reforça a importância de verificar se a renda familiar e o imóvel desejado atendem às regras vigentes do MCMV. O programa possui mecanismos que podem tornar a aquisição mais acessível para famílias enquadradas nas faixas estabelecidas, enquanto compradores que ficam fora dessas condições continuam mais expostos ao custo do financiamento tradicional. Isso também ajuda a explicar por que o mercado pode apresentar crescimento geral enquanto determinados segmentos enfrentam dificuldades maiores para transformar procura em vendas.

O que os números indicam para quem pretende comprar ou vender um imóvel?

Além do crescimento das vendas, a oferta disponível ajuda a entender o momento do mercado. Ao final do segundo trimestre, havia 355.290 imóveis residenciais novos disponíveis para comercialização, segundo a CBIC, queda de 2,1% em relação às 362.953 unidades existentes ao término do primeiro trimestre. Na comparação anual, entretanto, a oferta permaneceu 8,2% superior. O Sudeste seguiu uma dinâmica diferente na comparação trimestral, registrando aumento de 1,1% na oferta disponível. (CBIC)

Outro dado importante para imobiliárias e compradores é o perfil dos imóveis que estão sendo negociados. As unidades com dois dormitórios concentraram 65,2% das vendas realizadas no segundo trimestre, representando quase dois de cada três imóveis comercializados. Imóveis de um dormitório ficaram com 23,1% das vendas, enquanto unidades com três quartos representaram 10% e aquelas com quatro dormitórios responderam por apenas 1,8%. Essa concentração indica uma preferência por unidades capazes de atender diferentes perfis familiares sem necessariamente alcançar os preços de imóveis maiores. (CBIC)

Os valores movimentados, porém, mostram que quantidade de vendas e faturamento não caminharam exatamente na mesma direção. O Valor Geral de Vendas (VGV) chegou a R$ 66,2 bilhões entre abril e junho, praticamente estável diante do primeiro trimestre, mas 5,5% inferior ao segundo trimestre de 2025. O preço médio das unidades vendidas ficou em aproximadamente R$ 581,9 mil, redução de 1% na comparação trimestral e de 10,3% na comparação anual, movimento influenciado também pelo aumento da participação do Minha Casa, Minha Vida, cujos imóveis normalmente possuem valores menores. (CBIC)

Para quem pretende adquirir um imóvel nos próximos meses, portanto, o crescimento das vendas não significa que seja necessário acelerar uma decisão sem planejamento. Juros elevados continuam tendo peso considerável no valor final de financiamentos longos, e pequenas diferenças de taxa podem representar valores relevantes ao longo de décadas. Comparar propostas de diferentes instituições, avaliar a possibilidade de aumentar a entrada e conferir as condições de programas habitacionais são medidas importantes antes de assumir uma dívida imobiliária.

O balanço do primeiro semestre de 2026 mostra um mercado imobiliário brasileiro que permanece ativo, mas cada vez mais dependente das condições oferecidas a diferentes perfis de compradores. O crescimento de 5,3% nas vendas do segundo trimestre e de 5,4% no semestre demonstra continuidade da procura por imóveis, enquanto a retração anual dos lançamentos e o peso dos juros revelam que ainda existem obstáculos importantes. (CBIC)

O Minha Casa, Minha Vida aparece como um dos principais responsáveis por essa sustentação, alcançando participação recorde nos lançamentos e mais da metade das unidades vendidas no trimestre. Para consumidores, imobiliárias e construtoras, o cenário reforça a necessidade de acompanhar não apenas os preços dos imóveis, mas também as condições de financiamento, disponibilidade de crédito e políticas habitacionais. Esses fatores deverão continuar determinando o ritmo do mercado imobiliário brasileiro ao longo do segundo semestre de 2026.

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