Mais horas não significam mais produtividade jurídica

Erik Nordalen
Por Erik Nordalen 5 Min de leitura
Gilmar Stelo

Segundo Gilmar Stelo, advogado e fundador do Stelo Advogados, a crença de que trabalhar mais horas torna um escritório de advocacia mais produtivo é um dos equívocos mais repetidos entre profissionais do Direito, e um dos que mais custa caro em qualidade de vida e em qualidade de entrega.

Diante do exposto, vale desmontar essa ideia com calma: mais horas trabalhadas não equivalem, na prática, a mais valor entregue ao cliente, e essa confusão costuma vir de uma cultura jurídica que ainda mede esforço pela quantidade de tempo visível dedicado a cada caso, em vez do resultado final.

Por que a associação entre horas e produtividade é enganosa?

Advogados que emendam audiências, prazos e atendimentos sem pausa costumam produzir peças mais longas, mas não necessariamente mais precisas, já que a fadiga acumulada ao longo do dia reduz a capacidade de análise justamente nos momentos que exigem mais atenção ao detalhe técnico.

Gilmar Stelo observa que a produtividade real em um escritório de advocacia está ligada à qualidade da entrega e ao tempo efetivamente dedicado a pensar sobre cada caso, não ao número de horas em que o profissional esteve fisicamente disponível para o trabalho.

Sendo assim, dois advogados podem trabalhar a mesma quantidade de horas e produzir resultados bem diferentes, porque o que separa um do outro não é o tempo total, mas a forma como esse tempo é organizado ao longo da rotina jurídica de cada um.

O que realmente diferencia um escritório produtivo?

Um escritório produtivo costuma ter processos bem definidos para tarefas recorrentes, como elaboração de peças padrão, organização de prazos e comunicação com clientes, o que libera tempo de qualidade para as decisões estratégicas que exigem julgamento jurídico mais apurado e cuidadoso.

Gilmar Stelo
Gilmar Stelo

Segundo Gilmar Stelo, delegar tarefas operacionais para a equipe de apoio, mantendo o advogado focado nas decisões que exigem experiência jurídica, aumenta a produtividade real do escritório com muito mais eficácia do que simplesmente estender o horário de trabalho.

Blocos de tempo dedicados exclusivamente a análise e redação, sem interrupção de ligações ou mensagens, também costumam render mais em poucas horas concentradas do que um dia inteiro fragmentado entre pequenas interrupções constantes ao longo da rotina inteira do escritório.

O custo real de trabalhar horas em excesso

Advogados que trabalham em excesso por longos períodos tendem a cometer mais erros processuais, perder prazos por cansaço acumulado e ter dificuldade em manter a atenção nos detalhes que costumam fazer diferença no resultado final de um processo importante.

Na avaliação de Gilmar Stelo, esse desgaste também afeta a relação com o cliente, já que um advogado esgotado tende a se comunicar de forma mais seca e menos disponível, mesmo sem perceber, justamente nos momentos em que o cliente mais precisa de atenção e clareza.

Esse ciclo tende a se retroalimentar: o cansaço reduz a qualidade do trabalho, o retrabalho gera mais horas de dedicação, e o escritório acaba preso em uma rotina de esforço crescente sem que a produtividade real acompanhe esse aumento constante de tempo dedicado.

Como medir produtividade de forma mais honesta?

Em vez de medir produtividade pelo tempo trabalhado, faz mais sentido acompanhar indicadores como prazos cumpridos sem correria de última hora, qualidade das peças produzidas e tempo de resposta ao cliente, que refletem melhor o valor real entregue pelo escritório ao longo dos meses. Essa mudança de métrica exige uma revisão cultural, não apenas técnica: enquanto o escritório continuar valorizando quem fica até mais tarde, em vez de quem entrega com mais qualidade e consistência, a cultura de horas em excesso continuará sendo recompensada internamente.

Compartilhe esse artigo